Alimentação saudável é um direito

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O direito à alimentação saudável começa a ser desrespeitado quando os detentores dos meios de produção, no sistema capitalista, visam apenas o próprio lucro.

A produção maciça de alimentos de origem animal na atualidade é feita de maneira danosa ao meio ambiente e aos consumidores. Campos gigantescos e florestas são devastados para a plantação de soja e milho, onde se usam agrotóxicos e fertilizantes para garantir fartura que, no entanto não garantem que os mesmos alimentos sejam seguros para os animais consumirem. Eles adoecem frequentemente devido a essa dieta e a condições precárias de vida, são mantidos em espaços pequenos e escuros durante todo o tempo de engorda e crescimento antes do abate.

Estima-se que animais de gado, como vacas e porcos, sejam mantidos vivos por apenas um terço do que viveriam em seu curso natural, sem a intervenção humana, crescendo rapidamente com a ajuda de hormônios e atingindo um tamanho razoável para o abate em tempo recorde, visando satisfazer a demanda econômica por carne.

A indústria leiteira também peca no processo de produção de leite com alimentação inadequada para os animais, condições de vida precária e insalubre, retirando os bezerros recém-nascidos de suas progenitoras com apenas um dia de vida, ou assim que estabelecem a amamentação. A vaca é ligada a aparelhos de sucção 24h por dia e quando para de produzir leite é inseminada artificialmente para gerar um novo bezerro e produzir mais leite. Os filhotes são levados para a engorda e abate ou para a procriação.

A criação de gado usa dois terços das terras cultiváveis do planeta e gasta uma quantidade exorbitante de água para plantar a soja e o milho para a ração e para o próprio gado beber. Grupos ambientalistas estudaram o problema por anos e repassaram aos principais órgãos internacionais que, se houvesse uma mudança de foco no que se produz no setor primário, passando de dois terços de terras cultiváveis para o cultivo de vegetais, o mundo seria capaz de produzir alimentos suficientes para todos.

Outro dado de importância fundamental para o debate sobre nutrição adequada é a produção de alimentos industrializados, que utiliza dezenas de produtos químicos e muito pouca matéria prima de qualidade. Nessa categoria estão inclusos os alimentos “empanados” como nuggets, os embutidos (linguiças, salsichas, presunto), os produtos lácteos (queijos, iogurtes, leite condensado), biscoitos, refrigerantes, doces (balas, pirulitos, chicletes), hambúrgueres etc.

O ponto chave da discussão sobre alimentação saudável é: o que precisamos comer para viver com qualidade?

Liberdade de escolha sobre o que comer não é uma realidade de todos

Quando se fala em liberdade de escolha na hora de consumir alimentos com tanta variedade disponível nos supermercados, omite-se uma realidade dura: essa liberdade não está acessível a todos. Apenas uma pequena parte da população mais abastada do mundo pode consumir carne.

A maioria das pessoas só tem acesso aos embutidos. Existe uma crença de que os produtos industrializados tem uma carga protéica maior e que é possível alimentar mais pessoas gastando menos. Pode-se chamar essa afirmação de a “Teoria da Comida de Astronauta”: em vez de consumir uma quantidade razoável de frutas, legumes e verduras, com pequenas quantidades de alimentos de origem vegetal, muitas pessoas acabam consumindo, na maior parte do tempo, uma combinação extraordinária de alimentos prontos ou pré-prontos, desde o café da manhã, com iogurtes, cereais açucarados, presunto, queijo e pão com suco de caixinha ou leite com achocolatado, passando por almoço e jantar com pizza, hambúrguer, lasanha pronta congelada e nuggets, sem comer ou beber nada vindo diretamente da terra. Entre os fatores que contribuem para esses hábitos pouco saudáveis estão a carga horária de trabalho pesada, que afeta ainda mais as mulheres, sobretudo as mães solo negras, e a propaganda maciça da mídia, que é conivente com as políticas de seus anunciantes.

Grandes quantidades de comida industrializada, que além dos químicos possui açúcar, sal e gorduras em excesso, estão associadas aos altos índices de obesidade e, consequentemente, a maiores riscos de saúde. Todos esses aspectos revelam que a qualidade do que comemos é multifatorial e depende de uma mudança radical na forma em que os alimentos são produzidos e distribuídos.

Mudança de paradigma

Para começar a repensar o modo como nos alimentamos é preciso começar um processo de reeducação da sociedade em todos os níveis. Setores primários, secundários e terciários devem ser orientados a ser responsáveis quanto aos produtos que comercializam. No entanto, é preciso entender que uma mudança tão drástica só pode ter início em dois lugares: no gabinete do governo e no núcleo familiar. No Brasil foi esse exatamente o caso.
Nos mandatos em que o Partido dos Trabalhadores esteve no poder, o combate à fome sempre foi uma das prioridades. Com o lema “Fome Zero”, o governo implementou o Programa Bolsa Família, que dá uma pequena renda fixa mensal a famílias necessitadas. Todas as pesquisas feitas após alguns anos da implementação dessa medida comprovam que o programa é um grande sucesso. Entre os resultados mais proeminentes, destacam-se a baixa evasão escolar das crianças cujas famílias foram beneficiadas pelo programa; a possibilidade de mais mulheres finalmente deixarem relacionamentos abusivos e criar seus filhos sem precisar terceirizar os seus cuidados; e o fato de que milhares de beneficiários devolveram os seus cartões de recebimento voluntariamente quando conseguiram trabalho remunerado. O Bolsa Família foi agraciado com premiações internacionais e virou modelo de gestão consciente. Modelos semelhantes estão sendo implantados na Suica e na Holanda, que pretendem oferecer um salário mínino a todos os habitantes, redistribuindo a riqueza.

Outro caso de sucesso, ainda nos governos PT, foi o restaurante popular. Espalhado pelas capitais do país, esse projeto trouxe comida de qualidade a preços módicos para a população mais carenciada. Privilegiou os trabalhadores braçais e pessoas que estão em situação de rua. Com esses dois projetos, o Brasil conseguiu tirar o nome do país do mapa da fome listado pela ONU.

Ações diretas foram essenciais para o combate à fome, mas o governo tinha em mente deixar um legado duradouro. Assim, em 2014, foi lançado o Guia Alimentar da População Brasileira, um compêndio de informações sobre como comer de forma saudável. O guia destaca-se por uma mudança essencial no pensamento vigente das dietas de emagrecimento. Em vez de contar calorias, valoriza-se a culinária local (tão afetada no mundo globalizado, que exalta as redes de fast-food), em porções equilibradas, e mais significante ainda, faz uma separação entre os grupos alimentares com recomendações de consumo baseadas em guias internacionais.

Basicamente, o Guia Alimentar estimula o consumo de uma dieta à base de vegetais orgânicos (principalmente os produzidos em hortas caseiras ou em plantações certificadas como orgânicas), com proteína animal (carne, leite, ovos) também oriundos de criação orgânica e sustentável, classificados na categoria de alimentos naturais ou da terra. A seguir vem o grupo dos alimentos minimamente processados, como as farinhas (de mandioca, de trigo, fubá), os cortes de carne congelado e o leite pasteurizado.

Na medida em que os alimentos começam a sofrer mais alterações e processos, seu consumo é desestimulado pelo guia. As duas categorias seguintes são: Alimentos Processados (que inclui produtos como frutas em calda e sardinha em lata) e Alimentos Ultra Processados (que inclui os refrigerantes, iogurtes e macarrão instantâneo).

Com esse guia o governo procurou criar na população um pensamento e um questionamento sobre o que comemos para que, com a mudança de hábitos, a indústria pudesse se adequar a ela, e assim reverter, a curto, médio e longo prazo, os nefastos efeitos da globalização e do consumo desenfreado de produtos alimentícios altamente calóricos, açucarados, salgados ou com composição química duvidosa. Valorizar a culinária típica local foi outra estratégia voltada para o combate à fome, a desnutrição e a incentivar um estilo de vida saudável. Comer é essencial para a sobrevivência, mas comer de forma saudável é essencial para uma vida com qualidade.

O Guia Alimentar para a População Brasileira, assim como o Bolsa Família, recebeu elogio dos principais órgãos de saúde mundiais, sendo considerado outro exemplo de sustentabilidade e de responsabilidade governamental para com a população.